LEITURA COMO FATOR DE EXCLUSÃO SOCIAL

O Brasil ainda se debate contra o analfabetismo, mas avança. É um paradoxo. Nos últimos 30 anos, as taxas de alfabetização e de escolarização cresceram. Isso não implicou, porém, o aumento correspondente de obras lidas anualmente pelos brasileiros.
Com a globalização, os meios eletrônicos e o mundo audiovisual tornaram tudo mais fácil. Os alunos hoje se comunicam por telefone e por internet. Até mesmo a conversa entre amigos está escassa. O conhecimento está pronto, não há a necessidade de reflexão profunda. O uso do que fornece a TV e a Internet é mais prático e mais rápido.
Embora existam esforços incessantes por parte de alguns para colocar os novos meios tecnológicos à disposição da educação, a sociedade, as famílias e os profissionais da educação não cultivam suficientemente os livros para que a leitura se estabeleça como bem de consumo maior.
A indigência nacional em leitura é mais do que um problema de ordem educacional ou cultural. Transformou-se em fator determinante para a exclusão social. Os comprovados baixos desempenhos em leitura denunciam relação estreita com a ausência de cultura local dirigida à leitura e à reflexão.
No contexto escolar, a leitura é, a um só tempo, meta e meio de aprendizagem. Estatísticas sobre a educação brasileira mostram que há um número expressivo de alunos deixando a escola sem desenvolver adequadamente as habilidades de leitura. O abandono precoce da escola significa a exclusão não só em leitura, mas também do exercício pleno de cidadania.
Essa questão envolve a desconsideração do aluno como usuário de textos e a artificialidade do ensino, pois, a maioria das vezes, o que é oferecido para leitura está distante do universo real. As restritivas metas do ensino, aliadas à inadequação metodológica, são outros entraves ao desenvolvimento da leitura dos alunos.
Sendo a escola um dos lugares em que o indivíduo se inscreve em um grupo social, pode-se dizer que o mau desempenho em leitura liga-se diretamente à exclusão social, pois o ambiente escolar tem sido palco de leituras mecânicas e arcaicas.
É preciso que a família desenvolva hábitos em leitura com a criança desde cedo. A leitura tem certas exigências. O ato da leitura requer freqüência e regularidade, entretanto a maioria das crianças não é incentivada a desenvolver leitura, porque a maioria das famílias não lê.
É inegável que a aprendizagem da leitura é um ato social. Todos aprenderão a ler se viverem em uma sociedade que partilha livros. Família que não lê, aliada a professores e escolas que não privilegiam a leitura, é a receita certa para o insucesso nessa área.
Portanto, falar em inclusão social em leitura é mudar a sociedade, além de adotar um conjunto coerente de medidas que requerem recursos e esforços, pois a exclusão é conseqüência direta de um modelo socioeconômico aviltante.
A promoção de novas práticas sociais em leitura supõe políticas públicas definidas, com o propósito de incentivar a mudança e o enriquecimento dessas práticas de leitura nas famílias e nas escolas.

Josenia Antunes Vieira – Doutora em Lingüística, professora da Universidade de Brasília.